Ainda estou aqui, ainda respiro e as minhas articulações ainda mexem. As teias de aranha começam a atrapalhar o pensamento, o movimento dos dedos e das pálpebras. Os neurónios saltam como insectos presos numa caixa de fósforos. Torturados com o calor.
Continuo aqui, a torturar os meus neurónios e a limpar as teias de aranha de vez em quando. Continuo aqui, como alua continua no céu a permitir a vida na Terra e como o sal continua no mar a permitir que o bacalhau fique com aquele sal delicioso.
Continuo aqui, ali e acolá. Com as mesmas ideias com algumas novas. Com algumas peças a menos e algumas peças a mais. Percebes quando digo que o puzzle que sou, se desmonta cada vez mais? Percebes a necessidade de pegares nas peças e de lhes encontrares o respectivo sítio? Compreendes quando digo que as peças novas que adquiri, estão perdidas e desencontradas do pedaço maior que ainda se mantém intacto, apesar de todas as adversidades? Compreendes tudo o que eu digo ou apenas finges que sim?
Lês tudo o que eu escrevo ou apenas dizes que sim? Gostas das letras que junto e do puzzle que sou, ou apenas me queres fazer acreditar nisso, como numa mentira piedosa?
É que eu continuo aqui, a ouvir-te dizer que sim sem te ver. A ouvir as tuas mentiras piedosas e a acreditar nelas, como se de verdades absolutas se tratassem.
Acreditas em mim quando digo que continuo aqui? Acreditas que sou eu a escrever estas palavras?
Pois enganas-te. Eu já não estou aqui há muito tempo, e o puzzle que fui está agora destruído. Apresento-te as minhas peças desfeitas, aquelas que resistiram à destruição mas que não encontram sítio onde encaixar. Apresento-te os meus destroços, os pedaços daquilo que outrora fui.
Já não estou aqui, e tal como a Terra morre sem lua, espero que sem mim o teu destino seja o mesmo.
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