sábado, 23 de fevereiro de 2013

O que eu gosto mais em Tolstói

O que eu gosto mais em ler Tolstoi? A maneira como ele escreve as coisas que eu sinto ou já senti em alguma altura da minha vida e que nunca consegui encontrar palavras para descrever. Como ele me fez sentir menos estranha e deslocada. 
A facilidade com que compreendo as ideias dele ou a possibilidade de adaptar os sentimentos descritos a determinadas situações da minha vida. Aquelas situações que nem eu percebia até então, às quais nem eu conseguia dar sentido ou arranjar uma possível razão de ser.
O que eu gosto mais nas obras de Tolstoi? A forma brilhante como ele me faz gostar por momentos da comunidade russa e da maneira sublime como transmite tantas emoções que até então eu só tinha sentido. Agora leio-as, percebo-as. As coisas que me envergonhavam e das quais nem eu própria me queria lembrar, preferindo ignorar e fingir que não tinham acontecido, como se não tivesse sentido ou pensado aquilo que senti e pensei, com medo de me ver obrigada a classificar-me como desumana, cruel ou exagerada. Essas coisas tornam-se reais, aceitáveis e compreensíveis. É como que se de uma magia se tratasse. Uma magia que me torna mais humana, contra todas as probabilidades e prognósticos. 
Abre-se um portão infinito para um terreno onde jamais me atreveria a aventurar com estes neurónios medricas e cobardes que se escondem na sua zona de conforto. 
O que eu gosto mais em Tolstoi é o facto de empurrar os meus neurónios para fora da sua zona de conforto. Torna-os mais fortes, corajosos e destemidos. E eu também me sinto assim, invencível por momentos. Como se nada me pudesse tocar enquanto leio aquelas linhas, outrora escritas por alguém que sabia como o fazer, e como o fazer da melhor das formas. Leio para mim e para o meu coração, leio para o meu cérebro e para os meus neurónios, leio para os meus olhos e para os meus cabelos. Leio para as minhas lágrimas, que por vezes não resistem em vir dar um ar da sua graça, quando se sentem impelidas pela emoção. Normalmente uma emoção liderada pela felicidade, pela saudade, pela verdade, pela surpresa. Quando leio algo que sempre quis dizer, de uma maneira que nunca me foi possível. Ou por timidez, ou por falta de criatividade, ou por falta de vocabulário, compreensão, maturidade, conhecimento ou inteligência. 
E o que gosto mais em Tolstoi é do facto de me dar todas essas coisas que eu tenho em falta.

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