Chamas-me estranha e não percebes o que digo. Achas que estou a ficar uma seca, mas não sais de ao pé de mim. Ficas tanto tempo calado a olhar para mim, que chego a pensar que há algo de errado contigo. Mas depois percebo que afinal é comigo, antes de chegar à conclusão que errados somos os dois. Nada disto é normal, mas sabe melhor que todos os normais que já experimentei. Nada disto é certo, e isso faz-me querer-te ainda mais...faz-me querer agarrar e não largar, para não perder nada, para te ter sempre.
Dizes que sou linda, sem te rires. Mexes no meu cabelo, e fazes-me tranças vezes sem conta. Não te fartas de mim, mesmo quando te obrigo a ler Tolstoi até eu adormecer. Tens sempre esse sorriso que te faz parecer tão tranquilo, intocável e invencível. É tão fascinante que quem acaba a olhar fixamente sou eu.
Não achas esquisito quando falo com a minha avó que morreu no outro dia. Nem pões em causa quando digo que os espíritos querem que nos beijemos mais uma vez. Já morreram há muito tempo e nós somos a primeira companhia que eles têm desde essa altura. É por isso que gosto de ir para sítios como aquele, para lhes fazermos companhia e termos privacidade. Podemos apanhar sapos e ver como são as suas entranhas. Podemos comer formigas e fazer fogueiras com labaredas que sobem mais alto que as nossas cabeças e que depois não conseguimos apagar.
Podemos fazer tudo, e é isso que gosto em ti. Podemos falar ou estar calados, fechar ou abrir os olhos, podemos ouvir musica que a maior parte das pessoas detesta. Podemos ser e ter tudo o que quisermos.
Dizes que sou estranha, mas mais estranho és tu, por ainda estares aqui.



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