O Natal é bonito por si só, apesar de este ano nem isso me convencer. Para quê tanta tracalhada que só serve para ocupar espaço e trazer pó da dispensa para a sala de estar?
O que vale é que cá em casa não há nada dessas coisas. Há um presépio que me faz companhia a maior parte do tempo em que tento encontrar alguma coisa na televisão para ver, quando devia estar a estudar qualquer coisa importante que depois me vai pôr nervosa no dia seguinte. Lembro-me daquele presépio desde que me lembro de mim, gosto da maneira como as figuras olham umas para as outras. Como se estivessem a falar de mim e de como as pessoas lá em cima no céu já não são o que eram, não muito diferente do que se passa aqui em baixo. Gosto de serem todas da mesma cor, todas côr de cobre, como se tivessem sido feitas à mão por um antigo artesão que agora vê lá de cima o filho no desemprego.
Gosto da vela que a minha mão põe lá ao pé e do cheiro que deita, a cera. Só a cera, sem odores artificiais daqueles que me fazem espirrar vezes sem conta.
Gosto de tudo natural, sem Pais Natais, sem árvores que mais parecem a Lady Gaga do mundo das ervas, sem músicas repetitivas que já cansam qualquer pessoa (quero eu acreditar) e sem listas intermináveis de presentes nem anúncios de bonecos feios e sem cabelo que me assustam e provocam pesadelos ocasionais por serem carecas e estarem sempre a rir (com um sorriso sádico que me causa arrepios depois de olhar muito fixamente para aqueles olhos pintados com tinta mal cheirosa) Mas acima de tudo assustam-me por me lembrarem das carteiras vazias que em muitos casos nem sequer existem, e nas crianças que crescem a pensar que o Natal é aquilo. E depois evoluem para este nivel de adulto como aqueles que hoje aparecem na televisão, ou que não aparecem mas fazem de tudo para o conseguir.
Não gosto que as pessoas sejam esquecidas nos outros dias do ano, e que por ser Natal todos se lembram como que por magia.
Não gosto de me sentir na obrigação de dar uma bugiganga sem utilidade nem significado a alguém, só porque "é Natal".
Não gosto de tanto vermelho, branco e verde em todo o lado.
Não gosto que a missa do galo esteja vazia e não gosto de escrever mil vezes a frase "Feliz Natal e Bom Ano Novo" que já tão automaticamente escrevemos nos postais, mensagens, cartas, etc. sem pensar.
Não gosto que faltem pessoas da família porque a saudade dói, e o Natal é suposto ser todo sobre felicidade.
Gosto que haja esperança, mas não consigo deixar de ser negativa. Chamem-me sínica se quiserem, mas agradecia que não quisessem.
Feliz Natal, não é o título deste post.
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