Se o vento estivesse um bocadinho mais forte, cada passo que dava era imediatamente anulado por uma força sobrenatural que me arrastava 5 m no sentido contrário.
Mas não chega a esse ponto. Ainda consigo andar na direcção que a minha vontade escolhe e, embora com bastante dificuldade, consigo apanhar o cabelo de modo a ver o caminho que se vai montando à medida que dou cada passo. Passos inseguros e medrosos, que me ajudam a jogar pelo seguro, ou melhor dizendo: a andar pelo seguro. Tenho medo de pisar detritos biológicos de um qualquer animal que há pouco tempo atrás se sentiu invadido por uma vontade incontrolavel de...evacuar (parece-me uma palavra adequada). Tenho medo de embater contra um veículo em andamento, e acabar por amolgar o capôt deste último que saíria do local com a designação de "vítima de atropelamento e fuga".
Tenho medo de tropeçar nos meus atacadores, porque é julho e ainda não me consegui separar dos meus tennis. Tenho medo de passar à frente da minha casa, continuar a andar e chegar a um local desconhecido onde não tenho rede no telemóvel e de onde não sei o caminho de volta a casa.
Tenho medo de imensas coisas, e às vezes tenho medo do medo. Daquele medo que me deixa parada, sem reacção, sem coragem nem iniciativa. Daquele medo que tem cara de mau e me faz rasteiras para eu cair redonda no chão (redonda? nunca cheguei a perceber bem esta curiosa expressão).
Retomando a minha linha de raciocínio: Tenho medo do medo, daquele que chego até a personificar e a imaginar como sendo uma figura masculina de grande porte. Forte e irreverente, que se coloca à minha frente como uma estátua de pedra escurecida pelo tempo. Não me deixa andar, impede-me de falar, corta-me o pensamento e dá-me vontade de gritar.
Há alturas em que a figura masculina e assustadora desaparece do meu campo de imaginação e pensamento. E é nessas alturas em que corro livremente pela estrada. Sim, pela estrada. Bem no meio da via onde os carros circulam. Porque no passeio só ando quando o medo volta a aparecer, e influencia esta pequena memória, que mesmo se deixando abanar pelo vento, só é mesmo afectada pelo medo.
Hoje ando no passeio. Com medo dos carros, das carrinhas e das motas. Com receio de ser atropleda, e não de os atropelar a eles.
Não tenho medo que o vento venha contra mim e me arranque o escalpe da cabeça ou despenteie o cabelo já por si pouco penteado. Tenho é medo que o vento me tape os olhos, com areia ou terra. Com cabelos ou com as palpebras que se fecham para protejer as sensíveis retinas. Tenho medo de não ver e de me perder algures, num sítio desconhecido.
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